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Quando tinha 22 anos, em 1959, o britânico Christopher Percy Gordon Blackwell desembarcou na Jamaica de mochilão e descobriu o reggae. Descobriu também que o reggae não era gravado e tocado no rádio em sua própria terra, embora fosse uma força cultural jamaicana. Ele então criou ali a Island Records, que viraria uma gigante nos anos subsequentes (Blackwell catapultou as carreiras de gente como Cat Stevens, U2, Grace Jones, Tom Waits, Robert Palmer, Steve Winwood, entre muitos outros).

A Island Records ficou tão grande que ele mesmo não aguentou o tranco. “Se tornou grande demais para mim, uma corporação gigantesca. Eu ainda gosto daquela companhia, mas eu prezo mais a independência”, me disse Chris Blackwell no Brasil, há coisa de um mês, quando passeava por Angra dos Reis.
Blackwell se dedicou então a fazer tráfico cultural. De volta a Londres, ele cortou um carro que tinha e fez dele uma picapinha. Na parte de trás, encheu de discos e passou a vendê-los como um ambulante na periferia da capital, nos locais onde viviam os jamaicanos. Virou um Messias para aquela música emergente, produtor, agente, conselheiro, mago de estúdio. Eles o chamavam de “barefoot mogul”, algo como “O Chefão Descalço”. A ele vinham os novos ídolos, e ele fazia acordos de gravação e os ajudava como podia.
Ele também foi o responsável pela criação da produtora Island Alive, que produziu filmes e ganhou Oscars. Hoje, à beira dos 78 anos, rico e aposentado, largou a produção, vive entre a Jamaica e Londres como sempre viveu e mantém hotéis fabulosos (que administra numa empresa chamada Island Outpost), como o Goldeneye (que pertenceu a Ian Fleming, o criador de James Bond). Em 2001, Blackwell foi entronizado no Hall of Fame do Rock and Roll.
Você lembra o ano e como conheceu Bob Marley?
É claro. Foi em 1972, em Londres. Eu estava trabalhando com Jimmy Cliff, mas aconteceu de Jimmy cancelar nosso acordo, abandonar tudo e voltar para a Jamaica. Fiquei muito chateado – não com Jimmy, porque ele estava fazendo o que era melhor para ele, estava com saudade da família, tinha outros planos para aquele momento. Fez o que achava direito. Fiquei chateado porque estávamos trabalhando umas coisas bacanas, tínhamos feito um filme, “The Harder they Come”. Aí então alguém me disse: Bob Marley está na cidade. Ele já desfrutava de reputação em Kingston, mas eu não fui atrás dele porque estava envolvido com uns lances de rock. Eu já sabia que ele era bom, tinha ouvido as gravações. Aí aconteceu de um dia ele bater na minha porta. Ele estava duro, sem um puto no bolso até para comer um sanduíche, e caminhou até meu escritório. Eu fiquei impressionado com seu carisma e sua figura. Emprestei 4 mil libras pra ele em troca de um acordo: que ele gravasse um disco para mim com certo apelo mais moderno. Ninguém apostava que ele voltaria, diziam que ele sumiria com meu dinheiro. Mas ele me mandou uma fita masters com o disco que se tornaria “Catch a Fire”, gravado com os Wailers. Eu retrabalhei o disco com alguns elementos de rock, alguns sintetizadores, colocamos outras canções. Foi lançado em 1973.

Além do interesse comercial que você tinha no reggae, na época, qual era sua principal pretensão?
Veja, eu tive diversos focos de interesse e nenhum deles tinha a ver com mercado. Eram músicas que não recebiam interesse dos meios de comunicação. O reggae não tocava no rádio na época, e não toca até hoje. Eu lancei músicos africanos, como King Sunny Ade, que ninguém conhecia ou cuja obra não tinha o destaque merecido. Meu interesse era buscar o destaque e o reconhecimento que esses trabalhos mereciam.
Você sabe, justamente nessa época os músicos brasileiros tropicalistas estavam no exílio em Londres. Tem até uma música do Caetano Veloso que diz: “Walk down Portobello Road to the sound of reggae/I’m alive”.
Eu não conheço essa música. Que legal saber dela! Eu conheço Gilberto Gil, que fez um belo trabalho com seu disco Kaya, uma homenagem a Bob Marley, que o influenciou. Ele gravou na Jamaica, tem sua marca mas é um disco que faz o tributo sem se escorar na influência. Ele é um grande sujeito.
Essa semana (março de 2015), está tocando por aqui o Damian Marley, um dos filhos de Bob Marley. Ele teve diversos filhos que são músicos também, e suponho que você conheça todos. Qual deles é realmente digno do talento do pai?
Eu trabalhei três semanas com Stephen Marley. É um rapaz muito talentoso. Teve um momento em que eu chamei ele de Bob (risos). É impressionante a semelhança com o pai. Mas não tem o mesmo pique de show ao vivo do pai e é mais tímido. Ziggy é um cara delicado e cavalheiresco. Mas acho que Damian é o que foi mais longe, porque não vive à sombra do legado do pai, criou seu próprio e bem delineado caminho. É inteligente e gentil.
Você foi produtor e dono de gravadora numa época heroica, distinta. Hoje, com o comércio de música digital, o que você enxerga no futuro?
Olha, eu não sou romântico a respeito do passado. Hoje é muito menos caro fazer um disco. Você pode atingir sua audiência diretamente, sem intermediários. Há coisas extraordinárias que são permitidas pela tecnologia. Mas é claro que há coisas negativas. Reeditam os discos sem as notas do encarte, sem uma perspectiva histórica. Isso nem existe mais, o que é uma vergonha. Mas é a evolução do mundo. Hoje, todo mundo tem uma estação de TV em seu computador, pode fazer vídeos e postá-los. O problema parece ser o de convencer as pessoas a assistir, o que leva a algumas perversões. Mas o download, o streaming e o comércio via iTunes é um sintoma de saúde do mercado musical, embora persista o problema de remunerar adequadamente o artista. O cara tem 50 milhões de pessoas seguindo no Facebook, mas isso não se traduz em ganhos, em pagamentos de direitos. São situações que estão procurando resolução.
Com seu faro extraordinário para talentos musicais, você ousaria dizer que há algum novo artista no reggae que tem potencial para ser um novo Bob Marley?
Veja, é como Pelé: existirá algum dia outro jogador com potencial semelhante? Mas há um novo artista extraordinário na Jamaica. Estou trabalhando com ele, ajudando a dar uma força. Ele é muito inteligente, tem um espírito bom e potencial para ir muito longe. Seu nome é Chronixx (codinome de Jamar McNaughton). Tenho a impressão de que vamos estar falando dele durante muito tempo ainda.
  

Publicado originalmente em El Pájaro que Come Piedra Fonte: farofafa.cartacapital.com.br

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