destaque


Francisco Ronaldo Pereira, 30, já cansou de dizer aos outros que seu nome não é Bob. Não adianta. A fama do maior cantor de reggae da história chegou antes do conhecimento sobre a cultura Rastafári. Desde então, os longos rolos de cabelo embaraçado e as cores verde, amarelo e vermelho transformaram-se em sinônimo de reggae. Não só. O uso cultural da maconha como erva sagrada pelos rastafáris fez muito gente por aqui chegar à seguinte conclusão: reggae + cabelo de regueiro hippie (dreadlocks) masi as cores do reggae (da bandeira da Etiópia) = marginal.

De fato, com uma conclusão diferente, esses eram os elementos que compunham a imagem de um regueiro para o próprio Ronaldo na época em que ele apenas curtia em Fortaleza o estilo musical jamaicano. “Meu cabelo era liso, eu penteava e ficava olhando, mas com a vontade de querer ter o cabelo do Bob. Achava que o meu não ficava”, conta ele, hoje dono da oficina Bob Motos, no bairro São Bernardo.

Baterista de bandas do gênero, o cearense aos poucos começou a se aprofundar no assunto. Primeiro com as legendas de um DVD do Bob Marley; depois em conversas com rastafáris da Guiana Inglesa que passaram por aqui; até que o simples visual regueiro começou a ganhar novas dimensões.

Os rastas explicaram pra ele que os dreadlocks eram uma postura de não se cortar o cabelo baseada numa passagem bíblica. Que a maconha era uma erva sagrada, fumada como tal. que eles não comiam carne, não bebiam álcool, nem fumavam tabaco. Que a África era o berço da humanidade, que o passado negro deveria ser valorizado e que Hailé Selassiê (1892-1975), o antigo imperador da Etiópia, era considerado a encarnação de Deus na terra.

Tempos depois, largou o álcool, parou de fumar e usar outras drogas. Virou rasta, encontrou-se no plano espiritual, e se deparou não apenas com o preconceito contra regueiros, velho conhecido seu, mas com o desconhecimento sobre os rastafáris.

Virgínia Soares, 29, que viveu todo esse processo ao lado de Ronaldo, por várias vezes teve de ir sozinha ao encontro dos locadores de pontos comerciais. A pele alva, o cabelo loiro e os olhos azuis dela facilitavam a negociação.

“Eu botava uma roupinha toda socialzinha e alugava na hora, mas pra ele, não. Esse foi um dos maiores preconceitos que a gente enfrentou. Tudo que é pra resolver com o sistema, com banco, documento, essas coisas todas, quando é ele é mais difícil”, relata Virgínia.

Devido ao seu estilo de antes, sua cultura de hoje, Ronaldo já passou pelo preconceito da família, por abordagem policial, pela difamação da vizinhança e, cotidianamente, ainda se depara com reações arredias de pessoas em espaços públicos.

“Uma vez levei meu filho ao hospital e o médico olhou pra mim e disse: Por que você não vai tirar essa sua barba?!”, conta ele. “Muita gente diz que eu sou assassino, que eu sou traficante, dizem que eu sou bandido, aí acaba gerando um temor nas pessoas, que não querem conversar comigo... Muitas pessoas aqui na oficina já vieram me dizer: ‘Ronaldo, eu não sabia que você era assim, quem vê você, não imagina como você é’’.

A touca

Em Fortaleza, como ressalta Virgínia, existem muitas pessoas com dreads, mas poucos rastafáris. Contam-se nos dedos de duas mãos os integrantes do grupo que se encontra uma sexta por mês para discutir os preceitos da cultura na cidade. Um dos mais novos é o primogênito do casal, Ronaldo Jr, que completou 14 anos mês passado. Aos nove, Naldinho pediu para fazer os dreadlocks, seguindo os passos do pai e, de uma forma parecida, estranhando o restante da sociedade.

Mais de uma vez o estudante da Escola Municipal Professora Angélica Gurgel, em Messejana, já foi barrado na entrada da instituição de ensino pelo uso da touca, utilizada para guardar os longos cabelos. “Logo na entrada ela fica lá, aí quando eu entro com a touca, ela manda tirar e, como eu não tiro, manda pra casa”, conta o garoto.

Sandra Lúcia, diretora da escola de Ensino Fundamental 1 e 2 que possui aproximadamente 890 alunos, explica que o regimento da instituição proíbe o uso de qualquer adereço na cabeça, tais como boné, boina etc.

“É uma das regras que era até colocada pela polícia antigamente, porque as pessoas muitas vezes usavam isso pra colocar droga”, diz Sandra, que acrescenta a reação agressiva do aluno ao pedido como outro problema grave.

Por outro lado, a diretora conta também que desconhecia a simbologia cultural da touca, apresentada para ela pelo próprio pai do menino em conversa semana passada. “Ele me mostrou um outro ponto para o qual a gente nunca tinha atentado, que é a questão cultural. Pra mim a boina era o modismo do momento e não é, de fato é cultural”, reconhece.

Como explica o rastafári Oteldino Monteiro, 28, estudante cabo-verdiano que mora há um ano e meio em Fortaleza, a touca, assim como o turbante, é um elemento da cultura africana e serve também de proteção para o cabelo dos rastafáris: “O (dread) lock atrai energia negativa e positiva, então a maneira de protegê-lo é cobrindo. Por outro lado, qualquer um que começa a criar o lock, começa por uma razão espiritual. Ele existe não pra sociedade inteira, mas porque assumi um contrato com Jah”.

Naldinho também tem outra razão para o uso do adereço: “Uso também porque o pessoal fica tirando onda comigo. Quando eu tiro a touca, eles vêm frescar”.

Apesar das brincadeiras, como chamá-lo de Bob Marley também, no geral o maior preconceito vêm dos adultos, é o que garante o pai: “Eu fico em alto nível quando entro no mercantil, que o pai daquela criança olha pra mim com aquele preconceito e a criancinha: ‘Olha mãe! Eu quero uma touca dessa aqui, é bonita a toca dele’. Eu gosto muito das crianças, porque elas tiram o preconceito do adulto”. 

Deixe seu comentário

 
 
Pedidos Histórico